delícias & paisagens
22.9.24
14.6.24
Treze Anos por Aqui
Com licença poética
Quando
nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adelia Prado
Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 11)
2.6.24
Aniversário do Panforte
A ideia de produzir Panforte para comercializar nasceu em um 2 de Junho.
O ano era 2010.
As vendas começaram em 2011.
De lá para cá muita coisa a comemorar!
Muito obrigada a todos os amigos e clientes, que também se tornaram amigos.
Com eles estamos aqui hoje.
Viva 2024 !
23.9.23
15.6.23
Doze Anos por Aqui
14.1.23
Livramento
![]() |
Guignard , 1933 - Coleção Cartões para Amalita, Museu Guignard, MG |
ARTE POÉTICA
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
Adília
Lopes
22.9.22
25.8.22
Rosa Mística
Jean-Bathiste Siméon Chardin
A primeira vez
que tive a consciência de uma forma,
disse à minha mãe:
dona Armanda tem na cozinha dela uma cesta
onde põe os tomates e as cebolas;
começando a inquietar-me pelo medo
do que era bonito desmanchar-se,
até que um dia escrevi:
”neste quarto meu pai morreu,
aqui deu corda ao relógio
e apoiou os cotovelos
no que pensava ser uma janela
e eram os beirais da morte”.
Entendi que as palavras
daquele modo agrupadas
dispensavam as coisas sobre as quais versavam,
meu próprio pai voltava, indestrutível.
Como se alguém pintasse
a cesta de dona Armanda
me dizendo em seguida:
agora podes comer as frutas.
Havia uma ordem no mundo,
de onde vinha?
E por que contristava a alma
sendo ela própria alegria
e diversa da luz do dia,
banhava-se em outra luz?
Era forçoso garantir o mundo,
da corrosão do tempo, o próprio tempo burlar.
Então prossegui: “neste quarto meu pai morreu.
Podes fechar-te, ó noite,
teu negrume não vela esta lembrança”.
Foi o primeiro poema que escrevi.
Adélia Prado
(O Pelicano 1987)
20.7.22
Chapéu de Palha
Chapéu de palha
Matilde Campilho
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
14.6.22
Onze Anos por Aqui
Edouard Vuillard - Iris et Pensées, 1901
Amor e SexoAmor é um livroSexo é esporteSexo é escolhaAmor é sorteAmor é pensamento, teoremaAmor é novelaSexo é cinemaSexo é imaginação, fantasiaAmor é prosaSexo é poesiaO amor nos torna patéticosSexo é uma selva de epiléticosAmor é cristãoSexo é pagãoAmor é latifúndioSexo é invasãoAmor é divinoSexo é animalAmor é bossa novaSexo é carnavalAmor é para sempreSexo tambémSexo é do bomAmor é do bemAmor sem sexoÉ amizadeSexo sem amorÉ vontadeAmor é umSexo é doisSexo antesAmor depoisSexo vem dos outrosE vai emboraAmor vem de nósE demoraAmor é cristãoSexo é pagãoAmor é latifúndioSexo é invasãoAmor é divinoSexo é animalAmor é bossa novaSexo é carnavalAmor é issoSexo é aquiloE coisa e talE tal e coisaAi o amor Hmm o sexo, ahh
31.12.21
A Vida na Hora
A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.
Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.
De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.
Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado
eis os efeitos deploráveis desta urgência.
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não
conheço.
Isso é justo — pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.
Wisława Szymborska, Poemas
12.11.21
Espera
Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa
É então que se vê passar o silêncio
Navegação antiquíssima e solene
“Espera”, Sophia de Mello Breyner Andresen
22.9.21
13.9.21
14.6.21
Dez Anos por Aqui
27.1.21
Ao Rio
Paul Cézanne - Bridge across a pond - 1890 - Puskin Museum |
AO RIO
Ó rio – clepsidra de água metáfora da eternidade
entro
em ti cada vez tão diferente
que
poderia ser nuvem peixe ou rocha
e tu
és imutável como o relógio que marca
as
metamorfoses do corpo e as quedas do espírito
a
lenta decomposição dos tecidos e do amor
eu
nascido do barro
quero
ser teu aluno
e
conhecer a fonte o coração olímpico
ó
tocha fresca coluna cantante
rochedo
da minha fé e do desespero
ensina-me
ó rio a ser teimoso e persistente
para
que mereça na última hora
repouso
na sombra do delta imenso
no
sagrado triângulo do princípio e do fim
Zbigniew Herbert //Tradução: Ana Cristina César e Grazyna Drabik
5.1.21
28.12.20
Anunciação
![]() |
Anunciação- Fra Angelico (Giovanni da
Fiesole)- Afresco ca 1492- Museo di San Marco, Firenze |
O passado anda atrás de nós
como os detetives os cobradores os ladrões
o futuro anda na frente
como as crianças os guias de montanha
os maratonistas melhores
do que nós
salvo engano o futuro não se imprime
como o passado nas pedras nos móveis no rosto
das pessoas que conhecemos
o passado ao contrário dos gatos
não se limpa a si mesmo
aos cães domesticados se ensina
a andar sempre atrás do dono
mas os cães só aparentemente nos
[pertencem
pense em como do lodo primeiro surgiu esta
[poltrona este livro
este besouro este vulcão este despenhadeiro
à frente de nós à frente deles
corre o cão
Ana Martins Marques
O Livro das Semelhanças – Ed Cia das Letras 2017
p. 71
22.9.20
4.9.20
16.6.20
A Propósito das Estrelas
![]() |
Van Gogh - Noite Estrelada - jun 1889 MoMa NY |
A propósito de estrelas
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas
14.6.20
Nove Anos por Aqui
5.4.20
Delírios
![]() |
Pablo Picasso- O beijo - 1969 Musée National Picasso - Paris |
Você me olha, de perto você me olha, cada vez mais de perto e então brincamos de ciclope, nos olhamos cada vez de mais perto e os olhos crescem, se aproximam um do outro, se superpõem e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas se encontram e lutam calidamente, mordendo‑se com os lábios, apoiando levemente a língua nos dentes, brincando em seus recintos, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um silêncio. Então minhas mãos procuram afundar‑se em seus cabelos, acariciar lentamente a profundidade de seus cabelos enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E há uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e sinto você tremer contra mim como uma lua na água.”